Bem Vindo

Bem Vindo

O meu retrato

Cristina

hiperactiva de corpo, alma , espírito e raciocínio
professora de Matemática en retraite
Barata mas sem sangue de bARATA

de paixões diversas- os filhos, a dança, os animais e a ecologia

SUPER ROMÂNTICA

morena mas inteligente

Claro que os homens preferem as louras
mas casam com as morenas (foi o meu pai que disse)





sexta-feira, 30 de abril de 2010

Sonhar é Viver

Pelo sonho é que vamos

Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A Ecologia no seu Melhor

Carta do chefe índio

Introdução

Em 1854, o Grande Chefe Branco de Washington fez uma oferta de compra de uma grande extensão de terras índias, prometendo criar uma reserva para o povo índigena. O Chefe Índio Seattle, respondeu a esta proposta com a carta que se segue, sob a forma de poema:

Carta de Seattle

Como se pode comprar ou vender o firmamento,
ou ainda o calor da terra?
Tal ideia é-nos desconhecida.
Se não somos donos da frescura do ar
nem do fulgor das águas,
como poderão vocês comprá-los?
Cada parcela desta terra é sagrada para o meu povo.
Cada brilhante mata de pinheiros,
cada grão de areia nas praias,
cada gota de orvalho nos escuros bosques,
cada outeiro e até o zumbido de cada insecto
é sagrado para a memória e para o passado do meu povo.

A seiva que circula nas veias das árvores
leva consigo a memória dos Peles Vermelhas.
Os mortos do Homem Branco
esquecem-se do seu país de origem
quando empreendem as suas viagens
no meio das estrelas;
ao contrário, os nossos mortos nunca podem esquecer-se
desta bondosa terra
pois ela é a mãe dos peles Vermelhas.
Somos parte da Terra
e do mesmo modo
ela é parte de nós próprios.
As flores perfumadas são nossas irmãs,
o veado, o cavalo, a grande águia
são nossos irmãos;
as rochas escarpadas,
os húmidos prados,
o calor do corpo do cavalo e do homem,
todos pertencemos à mesma família.


Por tudo isto,
quando o Grande Chefe de Washington
nos envia a mensagem
de que quer comprar as nossas terras,
está a pedir-nos demasiado.
Também o Grande Chefe
nos diz que nos reservará
um lugar em que possamos
viver confortavelmente uns com os outros.
Ela se converterá, então,
em nosso pai
e nós seus filhos.
Por esta razão consideraremos a sua oferta
de comprar as nossas terras.
Isto não é fácil, já que esta terra
é sagrada para nós.

A água cristalina que corre nos rios e ribeiros
não é somente água:
representa também o sangue dos nossos antepassados.
Se lhes vendermos a terra, devem recordar-se
que ela é sagrada e,
ao mesmo tempo,
ensinar aos vossos filhos
que ela é sagrada e
que cada reflexo nas águas claras dos lagos
conta os acontecimentos e memórias
das vidas das nossas gentes.
O murmúrio da água é a voz do pai do meu pai.
Os rios são nossos irmãos e saciam a nossa sede;
são portadores das nossas canoas e
alimentam nossos filhos.
Se lhes vendermos a terra,
devem recordar-se e ensinar aos vossos filhos
que os rios são nossos irmãos e também o são deles,
e que, portanto, devem tratá-los com a mesma doçura
com que se trata um irmão.

Sabemos que o Homem Branco
não compreende o nosso modo de vida.
Ele não sabe distinguir um pedaço de terra do outro,
porque ele é um estranho que chega de noite
e tira da terra o que necessita.
A terra não é sua irmã, mas sim sua inimiga e,
uma vez conquistada,
ele segue o seu caminho,
deixando atrás de si a sepultura de seus pais,
sem se importar com isso!
Rouba a terra aos seus filhos:
também não se importa!
Tanto a sepultura dos seus pais
como o património dos seus filhos são esquecidos.
Trata a sua Mãe, a Terra,e o seu irmão, o Firmamento,
como objectos que se compram,se exploram e
se vendem como ovelhas ou contas coloridas.
O seu apetite devorará a terra deixando atrás de si só o deserto.

Não sei, mas a nossa maneira de viver é diferente da vossa.
Só de ver as vossas cidades
entristecem-se os olhos do Pele Vermelha.
Mas talvez seja porque o Pele Vermelha é um selvagem
e não compreende nada.
Não existe um lugar tranquilo nas cidades do Homem Branco,
não há sítio onde escutar
como desabrocham as folhas das árvores na Primavera
ou como esvoaçam os insectos.
Mas talvez isto também seja porque sou um selvagem
que não compreende nada.

Só o ruído parece um insulto para os nossos ouvidos.
Depois de tudo, para que serve a vida
se o homem não pode escutar o grito solitário de noitibó
nem as discussões nocturnas das rãs nas margens de um charco?

Sou Pele Vermelha e nada entendo.
Nós preferimos o suave sussurar do vento
sobre a superfície de um charco,
assim como o cheiro desse mesmo vento
purificada pela chuva do meio-dia
ou perfumado com o aroma dos pinheiros.

O ar tem um valor inestimável para o Pele Vermelha,
uma vez que todos os seres partilham um mesmo alento-
o animal, a árvore, o homem,
todos respiramos o mesmo ar.

O Homem Branco não parece estar consciente do ar que respira;
como um moribundo que agoniza durante muitos dias
é insensível ao mau cheiro.

Mas se lhes vendermos as terras,
devem recordar-se que o ar é,
para nós, inestimável,
que o ar partilha o seu espírito
como a vida que mantém.
O vento, que deu aos nossos avós o primeiro sopro de vida,
Também recebe os seus últimos suspiros.

E, se lhes vendermos as nossas terras, devem conservá-las
como coisa à parte e sagrada,
como um lugar onde até o homem branco
possa saborear o vento perfumado pelas flores das pradarias.

Por tudo isto, consideraremos a vossa oferta de comprar as nossas terras.
Se decidirmos aceitá-la, eu porei um condição:
O Homem branco deverá tratar os animais desta terra como seus irmãos.
Sou um selvagem e não compreendo outro modo de vida.
Tenho visto milhares de bisontes apodrecendo nas pradarias,
mortos a tiro pelo Homem Branco,
da janela de um comboio em andamento.
Sou um selvagem e não compreendo
como é que a máquina fumegante
pode ser mais importante
que o bisonte que nós só matamos para sobreviver.

Que seria do homem sem os animais?
Se todos fossem exterminados,
o homem também morreria
de uma grande solidão espiritual.
Porque o que suceder aos animais
também sucederá ao homem.
Tudo está ligado.

Devem ensinar aos vossos filhos
que o solo que pisam
são as cinzas dos nossos avós.
Inculquem nos vossos filhos
que a terra está enriquecida
com a vida dos nossos semelhantes,
para que saibam respeitá-la.

Ensinem aos vossos filhos
aquilo que nós temos ensinado aos nossos,
que a terra é nossa mãe.

Tudo o que acontecer à terra acontecerá aos filhos da terra.
Se os homens cospem no solo, cospem em si próprios.

Isto sabemos:
a terra não pertence ao homem;
o homem pertence à terra.
Isto sabemos.

Tudo está ligado.
Tudo o que acontece à terra
acontecerá aos filhos da terra.
O homem não teceu a rede da vida,
ele é só um dos seus filhos.
Aquilo que ele fizer à rede da vida
ele o faz a si próprio.
Nem mesmo o Homem Branco,
cujo Deus passeia e fala com ele
de amigo para amigo,
fica isento do destino comum.

Por fim talvez sejamos irmãos.
Veremos isso.

Sabemos uma coisa que talvez o Homem Branco
descubra um dia:
o nosso Deus é o mesmo Deus.

Vocês podem pensar nesta altura que Ele vos pertence,
do mesmo modo como desejam que as nossas terras vos pertençam;
porém não é assim.
Ele é o Deus dos homens
e a Sua compaixão reparte-se por igual
entre o Pele Vermelha e o Homem Branco.
Esta terra tem um valor inestimável para Ele,
e, se a estragamos,
isso provocaria a ira do Criador.

Também os Brancos acabarão um dia,
talvez antes que as demais tribos.
Contaminem os vossos leitos
e uma noite morrerão afogados
nos vossos próprios resíduos.
Contudo vocês caminharão para a vossa destruição
rodeados de glória,
inspirados pela força de Deus
que os trouxe a esta terra e que,
por algum desígnio especial,
lhes deu o domínio sobre ela
e sobre os Peles Vermelhas.

Esse destino é um mistério para nós próprios,
pois não percebemos porque se exterminam os bisontes,
se domam os cavalos selvagens,
se saturam os mais escondidos recantos dos bosques
com a respiração de tantos homens
e se mancha a paisagem das exuberantes colinas com os fios do telégrafo.

Onde se encontra já o matagal?
Destruído!
Onde está a águia?
Desapareceu!
Termina a Vida e começa a sobrevivência!

In Poema Ecológico
Júlio Roberto
Edições ITAU

liberdade

Liberdade

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...


Fernando Pessoa

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Vida Lenta Vida Feliz

Vida lenta, Vida feliz



Já parou para pensar naquilo em que a nossa vida se transformou? Corremos, dia a dia, vivemos para o fim de semana. Mal domingo chega e já existe na nossa cabeça um relógio em contagem decrescente para a hora em que o despertador toca na segunda-feira. Não há tempo para ouvir as crianças, nem para cozinhar uma refeição em condições. É tudo rápido. Temos comida rápida e transportes tão rápidos que conseguem atingir velocidades que não são permitidas por lei.

Mas o mais grave é que não damos tempo à vida. Também tem de ser rápida. As crianças crescem rápido e as mães contam encantadas que o filho com 9 meses já diz palavras, já tem 6 dentes e está a começar a andar. Com 5 anos já pode ir para a escola e se não faz seis até ao dia 31 de Dezembro, arranja-se um relatório psicológico que indique que o grau de desenolvimento da criança já lhe permite frequentar o primeiro ano. Os sete anos já não são a idade da razão. E ir para a escola é só aprender as letras e os números (muito mal, penso eu) e não é a fase linda da socialização em que se constróiem os laços de amizade mais intensos e já recordados até ao fim da vida. Isso pode-se saltar se for para ter o filho mais inteligente e mais novo da turma.

As avós e os infantários substituem as mães que estão tão ocupadas a fazer imensas tarefas que não conseguem ter tempo para observar o dente que caiu no recreio de hoje. A televisão, a play station e o computador são as baby-sitters preferidas dos pais. Ninguém repara que as crianças não dormem o número de horas suficientes e fazem horários de adultos. Ficam a ver telenovelas e os mais velhos a falar no msn até à meia noite. É sempre a andar. As crianças entram no ritmo e recriam nas suas brincadeiras a rapidez da vida:

* Vamos fingir que estamos a dormir!
* Ró chi, ró chi, ró chi...
* Já está. Temos de correr para ir para o emprego.

É preciso reaprender a viver ao ritmo da vida. É preciso reaprender a gozar o momento e a gosto pela vida. Para que o prazer de viver, ou seja, a delícia de “trincar” um momento pela primeira vez possa ter o encanto de um dia de sol no Inverno.

As Minhas Poesias Preferidas

Rústica


Ser a moça mais linda do povoado

Pisar, sempre contente, o mesmo trilho

Ver descer sobre o ninho aconchegado

A bênção do Senhor em cada filho.


Um vestido de chita bem lavado,

Cheirando a alfazema e a tomilho ...

Com o luar matar a sede ao gado,

Dar às pombas o sol num grão de milho ...


Ser pura como a água da cisterna,

Ter confiança numa vida eterna

Quando descer à “terra da verdade”...


Meu Deus, dai-me esta calma, esta pobreza!

Dou por elas meu trono de Princesa,

E todos os meus Reinos de Ansiedade.


Eu não sou de ninguém

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Eu não sou de ninguém!... Quem me quiser

Há-de ser luz do Sol em tardes quentes;

Nos olhos de água clara há-de trazer

As fúlgidas pupilas dos videntes!


Há-de ser seiva no botão repleto,

Voz no murmúrio do pequeno insecto,

Vento que enfuna as velas sobre os mastros!...


Há-de ser Outro e Outro num momento!

Força viva, brutal, em movimento,

Astro arrastando catadupas de astros!


Florbela Espanca (1894-1930)



Poema em linha recta

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.



O mostrengo

O mostrengo que está no fim do mar

Na noite de breu ergueu-se a voar;

À roda da nau voou três vezes,

Voou três vezes a chiar,

E disse, “Quem é que ousou entrar

Nas minhas cavernas que não desvendo,

Meus tectos negros do fim do mundo?”

E o homem do leme disse, tremendo,

“El- Rei D. João Segundo!”


“De quem são as velas onde me roço?

De quem as quilhas que vejo e ouço?”

Disse o mostrengo, e rodou três vezes,

Três vezes rodou imundo e grosso,

“Quem vem poder o que só eu posso,

Que moro onde nunca ninguém me visse

E escorro os medos do mar sem fundo?”

E o homem do leme tremeu, e disse,

“El- Rei D. João Segundo!”


Três vezes do leme as mãos ergeu,

Três vezes ao leme as repreendeu,

E disse no fim de tremer três vezes,

“Aqui ao leme sou mais do que eu:

Sou um Povo que quer o mar que é teu

E mais que o mostrengo, que me a alma teme

E roda nas trevas do fim do mundo,

Manda a vontade que me ata ao leme,

De El-Rei D. João Segundo!”


Fernando Pessoa

Mensagem (1945)



Magro, de olhos azuis, carão moreno

Bem servido de pés, meão na altura,

Triste de facha, o mesmo de figura,

Nariz alto no meio, e não pequeno;


Incapaz de assistir num só terreno,

Mais propenso ao furor do que à ternura;

Bebendo em níveas mãos, por taça escura,

De zelos infernais letal veneno;


Devoto incensador de mil deidades

(Digo, de moças mil) num só momento,

E sòmente no altar amando os frades,


Eis Bocage em quem luz algum talento;

Saíram dele mesmo estas verdades,

Num dia em que se achou cagando ao vento.


Bocage (1765- 1815)



ESTE LIVRO QUE VOS DEIXO

E QUE A MINHA ALMA DITOU,

VOS DIRÁ COMO O ALEIXO

VIVEU, SENTIU E PENSOU.


Peço às altas competências

perdão, porque mal sei ler,

p'ra aquelas deficiências

que os meus versos possam ter.


Quando não tenhas à mão

outro livro mais distinto,

lê estes versos que são

filhos das mágoas que sinto.


Julgam-me mui sabedor

e é tam grande o meu saber

que desconheço o valor

das quadras que vou fazer!


Compreendo que envelheci

e que daqui já não passo,

como não passam daqui

as pobres quadras que faço.


António Aleixo (1899- 1949)

poeta popular algarvio



Pátria

Por um país de pedra e vento duro

Por um país de luz perfeita e clara

Pelo negro da terra e pelo branco do muro


Pelos rostos de silêncio e de paciência

Que a miséria longamente desenhou

Rente aos ossos com toda a exactidão

Dum longo relatório irrecusável


E pelos rostos iguais ao sol e ao vento

E pela limpidez das tão amadas

Palavras sempre ditas com paixão

Pela cor e pelo peso das palavras

Pelo concreto silêncio limpo de palavras

Donde se erguem as coisas nomeadas

  • Pedra rio vento casa

Pranto dia canto alento

Espaço raíz e água

Ó minha pátria e meu centro


Me doí a lua me soluça o mar

E o exílio se inscreve em pleno tempo


Sophia de Mello Breyner

Livro Sexto”



Bucólica


A vida é feita de nadas:

De grandes serras paradas

À espera de movimento;

de searas onduladas

Pelo vento;


De casa de moradia

Caídas e com sinais

De ninhos que outrora havia

Nos beirais;


De poeira;

De sombra de uma figueira;

De ver esta maravilha:

Meu pai a erguer uma videira

Como uma Mãe que faz a trança à filha.

Miguel Torga

Diário I



Lágrima de preta


Encontrei uma preta

que estava a chorar,

pedi-lhe uma lágrima

para a analisar.


Recolhi a lágrima

com todo o cuidado

num tubo de ensaio

bem esterilizado.


Olhei-a de lado,

do outro e de frente:

tinha um ar de gota

muito transparente.


Mandei vir os ácidos,

as bases e os sais,

as drogas usadas

em casos que tais.


Ensaiei a frio,

experimentei ao lume,

de todas as vezes

deu-me o que é costume:


nem sinais de negro,

nem vestígios de ódio.

Água (quase tudo)

e cloreto de sódio.


António Gedeão

Máquina de Fogo (1961)



Menino que vais na rua

(Serenata cínica para o Bettencout cantar:)


Menino que vais na rua,

não cantes nem chores: berra!

Cospe no céu e na lua

e aprende a pisar a terra.


Aprende a pisar o mundo.

Deixa a lua aos violinos

dos olhos dos vagabundos

e dos poetas caninos.


Aprende a pisar a vida.

Deixa a lua às costureiras

  • pobre moeda caída

de quem não tem algibeiras.


Aprende a pisar no chão

o silêncio do luar

sem sentir no coração

outras pedras a gritar.


Pisa a lua sem remorsos,

estatelada no solo...

Não hesites! Quebra os ossos

dessa criança de colo.


Pisa-a, frio, com coragem,

sem olhos de serenata:

que isso que vês na paisagem

não é ouro nem é prata.


Menino que vais na rua,

não chores, nem cantes; berra!

Ou, então, salta prà lua

e mija de lá na terra.


Viver sempre também cansa!


José Gomes Ferreira



Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho

é uma constante da vida

tão concreta e definida

como outra coisa qualquer,

como esta pedra cinzenta

em que me sento e descanso,

como este ribeiro manso

em serenos sobressaltos,

como estes pinheiros altos

que em verde e oiro se agitam,

como estas aves que gritam

em bebedeiras de azul.


Eles não sabem que o sonho

é vinho, é espuma, é fermento,

bichinho álacre e sedento,

de focinho pontiagudo

que fossa através de tudo

num perpétuo movimento.


Eles não sabem que o sonho

é tela, é cor, é pincel,

base, fuste, capitel,

arco em ogiva, vitral,

pináculo de catedral,

contraponto, sinfonia,

máscara grega, magia,

que é retorta de alquimista,

mapa do mundo distante,

rosa dos ventos, Infante

caravela quinhentista,

que é Cabo da Boa Esperança,

ouro, canela, marfim,

florete de espadachim,

bastidor, paço de dança,

Colombina e Arlequim,

passarola voadora,

pára-raios, locomotiva,

barco de proa festiva,

alto forno, geradora,

cisão de átomo, radar,

ultra som, televisão,

desembarque em foguetão

na superfície lunar.


Eles não sabem, nem sonham,

que o sonho comanda a vida,

Que sempre que um homem sonha

o mundo pula e avança

como bola colorida

entre as mãos de uma criança.


António Gedeão

Movimento Perpétuo (1956)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

A Mãe na Poesia de Língua Portuguesa

A Mãe na Poesia de Língua Portuguesa

Mãe!

Que verdade linda

o nascer encerra:

Eu nasci de ti,

Como a flor da terra!


Matilde Rosa Araújo (1921- )

“O Livro de Tila”



Com TRÊS letrinhas apenas

Se escreve a palavra MÃE,

Que é, das palavras pequenas,

A maior que o mundo tem!


Helóisa Cid


O Nascimento




Depois de longa mas feliz jornada,

o menino repousa no seu ninho

feito de sonhos e lençóis de linho,

e agora em toda a casa é madrugada...


Sobre as penas macias da almofada,

Respira devagar, devagarinho,

como pássaro exausto do caminho...

e a mãe olha o milagre e não diz nada.



Que pode ela dizer? Deus é que fala

no seu olhar cansado, quando embala

o menino de rosas e jasmins...


Mas nesse gesto, nesse olhar profundo,

demasiado grande para o mundo,

há céus, estrelas, fontes e jardins.


Fernanda de Castro (1900- 1994)

ESCRITORA PORTUGUESA










Nobres mães, que mostrais orgulhosas

Os filhinhos num gesto sem par,

Alto ergueis essas fontes formosas!


Com Deus mesmo hei-des vós preparar

O porvir que em silêncio germina!


Velai, Mães, pela flor pequenina,

Pois à glória que a Pátria ilumina

Dais a chama no canto do lar!


José da Silva Mendes Leal Júnior (1818, 1886)

político, dramaturgo e poeta lisboeta



SER MÃE

Ser Mãe é desdobrar fibra por fibra
O Coração! Ser Mãe é ter no alheio
Lábio, que suga, o pedestal do seio,
Onde a vida, onde o amor cantando vibra.

Ser Mãe é ser um anjo que se livra
Sobre um berço dormindo; é ser anseio,
É ser temeridade, é ser receio,
É ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a Mãe goza é bem do filho,
Espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser Mãe é andar chorando num sorriso!
Ser Mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser Mãe é padecer num Paraíso!!


Coelho Neto (1864-1934)

escritor, político e professor brasileiro



A Vigília da Mãe Fatigada

São duas da manhã. E espera desde a nove …

Sabe Deus por onde anda o filho, que tristeza!

Vem da rua um rumor de água corrente. Chove.

Fatigada, a mãezinha adormece na mesa.


Mas um golpe de vento esfuzia na porta

E ela, sobressaltada, assustada, desperta,

Ergue a cabeça à claridade meio morta,

Vai abrir a janela e olha a rua deserta.


Senta-se... Ouvindo ao longe um lamento impreciso

Faz o sinal da cruz arrepiada de medo.

Depois apura o ouvido. E logo num sorriso:

Que medrosa que sou. É o rumor do arvoredo.”


Tanto que lhe pediu não tardasse! Debalde.

É toda noite assim, esse martírio lento!

E os quartos de hora das igrejas do arrabalde

Rolam das torres, como súplicas ao vento...


Pobre velha! Ao pensar de cabeça confusa,

No que tem de fazer assim que o dia nasça,

Toda a se espreguiçar, desabotoando a blusa,

Vai, pela última vez, espiar pela vidraça.


E a chuva cai... Então, à janela entreaberta,

Olha: numa expressão de abandono e de mágoa,

A rua se prolonga e se perde, deserta,

Com reflexos de espelho em cada poça de água.


Recolhe-se a tremer. Uma dor muito fina

Lhe apunhala um pulmão... Mas antes que se deite

Vai até ao oratório e acende a lamparina:

Uma chama pequena a dançar sobre o azeite.


Reza... Nossa Senhora é que lhe sabe as penas.

Reza... A Nossa Senhora ela tudo confessa.

E a santa, olhando-a bem, de pupilas serenas,

Dá-lhe esperança ouvindo uma nova promessa.


Depois abre uma porta: eis a cama do filho.

Vazia! E contemplando essa alcova quieta

Diz baixinho, enxugando os dois olhos sem brilho:

Pobres mães a quem Deus deu um filho poeta!”


Deita-se... De manhã, mal calçada a chinela,

Vai ver a alcova: o filho dorme, as mãos ao peito...

Já um pouco de sol que entra pela janela

Põe doirados de pó no aposento desfeito.


E em meio àquele desalinho pitoresco

Acha a decifração dessa noite passada:

Sobre a mesa um papel rabiscado de fresco

E um cheiro de mulher na roupa abandonada...


RIBEIRO COUTO (jornalista, magistrado, diplomata, poeta, contista e romancista brasileiro)

(1898- 1934)

O Jardim das Confidências”



ÚLTIMO LÍRIO (morto em meu colo)


De um crespúsculo à queda suave e lenta

E do meu pranto ao solitário orvalho,

Nas suas mãos, doridas do trabalho,

Pus do Santo Sepulcro a vela benta.


Beijou Nosso Senhor, e a paz, nevoenta,

Fechou-lhes os olhos para sempre! Espalho

Pelo seu rosto beijos, e a amortalho...

O sorriso final que bem lhe assenta!


Deito, depois, no humílimo ataúde

Meu lírio d'alma, o vaso de virtude

Que tanto e tanto neste val sofrera.


E assim, no seu caixão, pálida e fria

Minha mãe aos meus olhos parecia

Uma piedosa lágrima de cera!


B. Lopes 1859- 1916

(Poeta Parnasiano Brasileiro)

Plumário”


MINHA MÃE


Beijo-te a mão que sobre mim se espalha

Para me abençoar e proteger.

Teu puro amor o coração me acalma;

Provo a doçura do teu bem-querer.


Porque a mão te beijei, a minha palma

Olho, analiso, linha a linha, a ver

Se em mim descubro um traço da tua alma,

Se existe em mim a graça do teu ser.


E o M, gravado sobre a mão aberta,

Pela sua clareza, me desperta

Um grato enlêvo, que jamais senti:


Quer dizer- Mãe- este M tão perfeito,

E, com certeza, em minha mão foi feito

Para, quando eu for bom, pensar em ti


MARTINS FONTES (1884-1934)

As melhores Poesias Brasileiras”

(Selecção de Alberto de Serpa”


SER MÃE


Ser Mãe é ser Bondade, é ser Carinho;

Ser Mãe é ser o Anjo Tutelar

Que vai à nossa frente e arranca o espinho;

Ser Mãe é ser na terra o verbo “AMAR”...



Ser Mãe é ter no filho o seu cadinho;

É ter o coração maior que o Mar;

É Mónica no encalço de Agostinho;

É o verbo mais divino:- “PERDOAR!...”



Ser Mãe é ser o extremo da Coragem;

É ser Nossa Senhora em viva imagem;

É ser do filho o inesgotável dom!...



Ser Mãe é dar o Céu ao Pobre e ao Triste;

Ser Mãe é demonstrar que Deus existe,

Por ser sempre o melhor de quanto é bom!...


PADRE MANUEL ALBUQUERQUE

(brasileiro séc. XX)

De Volta do Meu Garimpo”



O AMOR MATERNAL


Que doce que é ser mãe! - Que meigo quadro

É ver a esposa ao lado do consorte

Não encobriu de todo

O casto véu segredos pudibundos

Nos braços lindos embalando o filho,

Seu único desvelo,

Que largou de cansado o níveo seio

E foi suavemente adormecendo

No amplexo maternal – Inda invejoso

Só do esposo sabidos: enlevada

Nas doçuras de mãe, toda prazeres,

Só para o filho atenta

Vede-a sorrindo ao tenro inocentinho,

Como se espalha nas mimosas faces,

E colhe nas feições, uma por uma,

O transumpto do esposo.

Com que graça lh'o diz! Como suspira

Magoada e triste se o consorte amado

Toda, toda não vê a semelhança

Que a ponto ela distingue!

Oh, se pálida ousou tocá-lo a febre,

Aqui são os desvelos, os extremos,

As não dormidas noites, os cansados,

Afadigosos dias.

Ei-la que se definha junto ao berço,

Que as lágrimas retém, que os ais sufoca

Se condoído Morfeu nos tenros olhos

Pousou do filho caro

Que promessas, que votos tão do peito

Se um Deus compadecido... E os Deuses ouvem

Mais que um rogo nenhumas maternas preces

Já visos de melhora

No semblante infantil vão despontando,

Ai que alegrias – recortadas inda

De enternecidos sustos, que os prazeres

Agrados emurchecem.

E salvo enfim: já cresce e ao lado folga

Da carinhosa mãe, já co'as mãozinhas

Lhe trava da orla ao cândido vestido,

Ou travesso lho rasga

Os anos correm, graças vão medrando

No corpinho gentil, n'alma embebida

Em suaves lições de sã virtude

C'o exemplo avigorada

Tal, esmero de Flora e mimo dela,

Cresce alvo lírio em vale deleitoso;

Brando Zéfiro o ameiga, a aurora o rega,

E as belas o cobiçam.


ALMEIDA GARRETT (1799- 1854)

escritor e dramaturgo português

Lírica de João Mínimo” (Livro Terceiro)



ÀS MÃES


Oh santas que embalais o berços das crianças,

E assim lh'o revestis de flóreas esperanças!

Que andais sempre a cuidar das almas por abrir,

E a verter-lhes no seio o gérmen do porvir!

Sois vós que, pela mão, da glória à vida inquieta,

Levais um vosso filho, um pálido profeta,

Que é Newton ou Petrarca, Ângelo ou Rafael,

Com o pincel e a pena, o compasso e o cinzel,

Fazendo, enobrecer quem lhe seguir o exemplo..

Sois vós que o conduzis aos pórticos do templo

Onde o porvir coroa os génios imortais,

E, mal chegadas lá, de todo o abandonais,

Sem aguardar sequer nas sombras de uma arcada

A grande aclamação que lhe festeja a entrada!

E – modestas que sois! - voltais a vosso lar

E só vos contentais em vê-lo atravessar

  • Coroada de lauréis a fronte cismadora-

Um arco trinfal que o cerca d'uma aurora...

Mas nós, cabeças vãs, escravos pelo amor,

Andamos a dizer: “Beatriz! Leonor!”

E o nome vosso, oh mães, não lembra um só instante!

Quem sabe o nome vosso, oh mães de Tasso e Dante?


Oh santas, embalai o berço das crianças!


Guilherme Braga (1845- 1874)

tribuno e poeta portuense

Heras e Violetas”


Poema à Mãe


No mais fundo de ti,

eu sei que traí, mãe!


Tudo porque já não sou

o retrato adormecido

no fundo dos teus olhos!


Tudo porque tu ignoras

que há leitos onde o frio não se demora

e noites rumorosas de águas matinais!


Por isso, às vezes, as palavras que te digo

são duras, mãe,

e o nosso amor é infeliz.


Tudo porque perdi as rosas brancas

que apertava junto ao coração

no retrato da moldura!


Se soubesses como ainda amo as rosas,

talvez não enchesses as horas de pesadelos...


Mas tu esqueces-te muita coisa!

Esqueces-te que as minhas pernas cresceram,

que todo o meu corpo cresceu

e até o meu coração

ficou enorme, mãe!


Olha, queres ouvir-me?:

às vezes ainda sou o menino

que adormeceu nos teus olhos;


ainda aperto contra o coração

rosas tão brancas

como as que tens na moldura;


ainda oiço a tua voz:

Era uma vez uma princesa

no meio de um laranjal...


Mas – tu sabes!- a noite é enorme

e todo o meu corpo cresceu...

Eu saí da moldura,

dei às aves os meus olhos a beber. Não me esqueci de nada, mãe,

Guardo a tua voz dentro de mim.

E deixo-te as rosas...

Boa Noite. Eu vou com as aves!

Eugénio de Andrade (1923- 2005 ),

poeta português”Os amantes sem dinheiro”



EU NÃO QUERO O TEU ANEL


Mãe, não quero o teu anel,

Nem os teus brincos,

Nem o teu colar de pérolas,

Nem a tua pulseira de ouro.

Quero o teu colo para encosto,

Um beijo no meu rosto,

O teu abraço enorme,

E estas palavras doces:

Dorme, filho, dorme”.


EU QUERIA UNS SAPATOS


Eu queria uns sapatos

Com asas nos saltos:

Batia com eles no chão,

“Trás. Trás”.

E subia ao céu,

Por cima das serras,

Por cima do mar,

Não para lá ficar...

Mas para roubar

Ao céu, que tem tantas,

A estrela mais linda,

Para dar à mãezinha.


Campos de Figueiredo (1899-1965)

poeta, ensaísta e dramaturgo português

“Colim Colom”



QUANDO EU NASCI


Quando eu nasci

ficou tudo como estava.


Nem homens cortaram veias,

nem o Sol escureceu,

nem houve estrelas a mais...

Sómente,

esquecida das dores,

a minha Mãe sorriu e agradeceu.


Quando eu nasci,

não houve nada de novo

senão eu.


As nuvens não se espantaram,

não enlouqueceu ninguém...


P'ra que o dia fosse enorme

bastava

toda a ternura que olhava

nos olhos de minha Mãe...

Sebastião da Gama (1924- 1952 )

poeta português


Pietá



JÁ LÍVIDO REPOUSA EM SEU REGAÇO

Já não escuta, não vê, não ri, não fala.

Aquele que foi Seu filho, Ela o embala

Morto, alheia a tempo e espaço.


O mistério parou no limiar dos assombros.

Dos irados profetas, das rígidas escrituras

Sobra um Deus morto; e os únicos escombros

São a atónita aflição das criaturas.


Eles choram, vários, como vários são

Sua revolta e sua dor. Absorto,

O OLHAR DA MÃE escorre inútil , no chão.

Ela, o que CHORA? O Deus parado- ou O FILHO MORTO?


Reinaldo Ferreira (1922- 1959)

Poemas”



SONHO DA MÃE NEGRA

à minha mãe



Mãe negra

Embala o seu filho

E na sua cabeça negra

Coberta de cabelos negros

Ela guarda sonhos maravilhosos.


Mãe negra

Embala o seu filho

E esquece

Que o milho já a terra secou

Que o amendoim ontem acabou.


Ela sonha mundos maravilhosos

Onde o seu filho iria à escola

À escola onde estudam os homens.


Mãe negra

Embala o seu filho

E esquece

Os seus irmãos construíndo vilas e cidades

Cimentando-as com o seu sangue.


Ela sonha mundos maravilhosos

Onde o seu filho correria na estrada

Na estrada onde passam os homens.


Mãe negra

Embala o seu filho

E escutando

A voz vem de longe

Trazida pelos ventos

Ela sonha mundos maravilhosos,

Mundos maravilhosos,

Onde o seu filho poderá viver.


KALUNGANO ( )

Poetas de Moçambique”

(antologia da Casa dos Estudantes do Império)